Porque ainda é importante ler hoje em dia?

“Livros não mudam o mundo, quem muda o mundo são as pessoas. Os livros só mudam as pessoas. ”  Mario Quintana

 Muitos dos nossos alunos questionam:

Porque ainda é importante ler hoje em dia?

Com o acesso facilitado a informação na atual era digital, será importante continuar a estimular os nossos filhos e alunos a ler?  A era digital trouxe um infinito de facilidades, a internet aproximou-nos do resto do mundo, colocou à nossa disposição uma imensa quantidade de conhecimentos e informação, mas, apesar de termos as respostas para quase tudo à mão, não conseguimos as respostas para muita coisa. E porque razão?

A era digital e o funcionamento do cérebro

 A neurociência divulgou nos últimos anos, pesquisas feitas em várias universidades que mostram como a internet e outros produtos da atual revolução digital modificam a maneira de funcionamento cerebral. Nicholas Carr, vencedor do prémio Pulitzer, publicou em 2010 o livro “Os Superficiais” refletindo sobre como a internet está a afetar o cérebro humano e como aquilo a que submetemos os nossos neurónios diariamente molda a longo prazo a forma como eles funcionam, fortalecendo certas características em detrimento de outras. Se por um lado o mundo digital aumentou a nossa capacidade de atenção a diferentes atividades simultaneamente,  esta também se tornou mais superficial, o que gera maiores dificuldades de absorver textos e ideias mais complexas. 

Benefícios da leitura

A leitura é uma excelente ferramenta para exercitar a concentração.O hábito de ler é extremamente saudável e além do conhecimento adquirido, melhora a escrita e enriquecimento de vocabulário.  Pesquisadores da universidade de Emory, nos Estados Unidos, descobriram que ler pode mudar a estrutura cognitiva; o desenvolvimento de senso crítico e de novas ideias torna-se natural e possibilita o acesso a diferentes perspetivas sobre um determinado assunto. Mark Zuckerberg, CEO e fundador do Facebook, publicou um post no seu próprio perfil com a resolução de ler mais, com a ideia de ler um livro a cada duas semanas e gerar discussão sobre o mesmo, exemplificando a importância da leitura como uma atividade que pode ser aliada à experiência e vivência digital.

O impacto da leitura na aprendizagem

 Embora saibamos o quanto é importante ler e estimularmos pais e professores a incentivarem a leitura, na verdade, esta é ainda um pouco desconhecida no mundo da educação.

 A leitura é difícil de avaliar. A leitura em voz alta não é a mesma leitura que temos em silêncio e cada tipo de leitura precisa de um estímulo diferente. Não é suficiente ser alfabetizado para saber ler. 

 Ler envolve memória, atenção, conhecimentos prévios, vocabulário, é algo abstrato e pessoal. Só conseguimos avaliar o que podemos observar e pode ser difícil para professores estimular e avaliar a leitura porque ainda não temos instrumentos específicos para o fazer. 

Em 2007, a pesquisadora Maryanne Wolf lançou um livro sobre a ciência por detrás de um cérebro que lê, e em 2018, lançou o livro “O cérebro no mundo digital”, explorando este assunto do ponto de vista neurológico. Neste livro a autora reflete sobre  o que acontecerá com a geração nascida num mundo digital quando a criança é exposta aos aparelhos e o impacto do tempo dessa exposição na educação, o uso de aparelhos desde quando somos bebés até aos cinco anos de idade e o que muda no cérebro devido a essa exposição. 

Segundo Maryanne, cada leitor é único. Quando uma pessoa lê, ela desenvolve circuitos novos de leitura no seu cérebro, que afetam elementos como a capacidade de “multitasking”, a rapidez na leitura e o lidar com as distrações. Os aparelhos interferem no modo como a leitura é processada, sendo este efeito distinto nos adultos e nas crianças.

 Na infância, até aos seis anos, a criança vive em dois mundos: um real e outro imaginário. Atualmente, ela vive ainda num terceiro mundo – o digital. 

Segundo estudos, o uso de aparelhos em excesso pode interferir nestes mundos infantis e o uso exagerado de ecrãs inibir o desejo natural das crianças de explorar o mundo ao seu redor. 

Além disso, essa exposição cria um sentimento de aborrecimento que as crianças não tinham antes da era digital, e que apesar de ainda estar em fase de pesquisas, já há evidências de que inibe algo muito importante – a criatividade. Nos aparelhos tudo já está pronto. Estes dão ideias às crianças, mas de modo superficial, até porque o digital não é real ou nem sempre aplicável à realidade. 

 Em suma, uma criança que não brinca a explorar mundos imaginários tem a sua capacidade de criar comprometida.  

A capacidade de criar tem impacto em várias áreas, e a leitura ajuda com a profundidade. Há níveis na leitura que são adquiridos ao longo da vida, facto que está relacionado com o poder que temos no cérebro de imaginar e que permite ir além do que se lê.Segundo Maryanne Wolf, continua a ser relevante o uso de livros impressos com as crianças, porque eles causam experiências táteis importantes. O importante é saber dosear o uso dos aparelhos pelas crianças.

 Questões sobre como a leitura digital influencia a leitura analógica ou até a forma biológica de processar a leitura, sobre como estimular e avaliar a leitura, sobre como dosear leituras de modo saudável para o cérebro, são importantes para a aprendizagem.  

Descodificar não é ler, passar os olhos não é entender. Antes pensávamos em ser letrado, que é a capacidade de ler a interpretar socialmente os textos e imagens. Hoje ser letrado equivale à capacidade de ler analógica e digitalmente textos e imagens. 

 A leitura é uma espécie de ferramenta que desenvolvemos ao longo dos séculos entre os humanos. Embora pouco explorada, pode ter a sua capacidade muito ampliada com o estímulo digital.   

Graças à Internet, temos mais possibilidades de ler livros do que antigamente, bem como de conhecer mais escritores e, consequentemente, aumentar e aprofundar o nosso conhecimento sobre qualquer assunto. 

Os livros, sejam físicos ou digitais,  disseminam valores, cultura, imaginação e a criatividade, pelo que, no nosso centro de estudos, acreditamos e estimulamos o cultivo de bons  hábitos e rotinas de leitura bem como o gosto pelo conhecimento, acreditando na importância da leitura através de instrumentos digitais, e não deixando de valorizar as evidências científicas dessa para o desenvolvimento do cérebro e assim, para a aprendizagem em geral.

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